COLEÇÃO ACERVO BRASILEIRO

Volume 5,
O colono preto como fator
da civilização brasileira

Contos fora da moda, de Artur Azevedo.

Manuel Raimundo Querino (1851-1923) foi um dos mais interessantes polímatas do Brasil, e um precursor em termos de cultura. Escritor, abolicionista engajado, e professor do que era à época o ensino técnico, Querino notabilizou-se como ensaísta de uma nascente antropologia brasileira, disposto à controvérsia sobre o que deveria ser uma visão satisfatória com respeito à relação entre raça e nacionalidade, e autor de livros didáticos, para formar desenhistas profissionais como ele próprio. Folclorista, para utilizar um termo às vezes depreciado na atualidade, interessou-se pela cultura popular especialmente na Bahia: é dele o grande livro A Bahia de outrora, publicado em 1916 pela Livraria Editora Econômica, em que procede a uma historiografia da cultura segundo o elemento etnográfico, particularmente africano — ou brasileiro de vertente africana, porque Querino enxergava em maior medida o tema da nacionalidade, assim como o das classes sociais, em sendo um entusiasta do movimento operário. Foi um dos fundadores do Partido Operário da Bahia, mutualista, de um caráter mais beneficente que revolucionário ou reformista, com um contingente grande de trabalhadores negros. O partido fragmentou-se em vários "rachas", e Querino engajou-se num de seus ramos mais devotados à difusão da cultura. No plano antropológico, opôs-se às teorias racialistas do maranhense Nina Rodrigues, para quem a mestiçagem era um dado desfavorável na construção do Brasil.

Neste pequeno ensaio, que consta dentre os documentos do 6º Congresso Brasileiro de Geografia, em 1918, o autor discute a negritude como fator de civilização nacional, estabelecendo o negro como um colono, o ente que confere à terra o sentimento e o significado humanos de modo permanente em termos de economia e cultura, muito embora a reivindicação abolicionista de uma reforma agrária em benefício da população de ex-escravos não fosse nunca satisfeita. O negro brasileiro reivindicado por Querino tem o talento da civilização, a vocação da civilização, em detrimento do português, corajoso e hábil no exercício da força, mas um péssimo colonizador, inimigo das artes, da imprensa, da indústria etc. De um modo mais abrangente, Querino não enxerga o negro brasileiro como um africano desterrado, mas, a certa altura, como um ser profundamente nacional, fundador da nacionalidade, a rocha sobre a qual o grande povo brasileiro está assentado. Para ele, a miscigenação tão própria do Brasil é forte e boa porque o negro terá sido o seu vetor principal: também este é o fator da civilização nacional apontado pelo autor.

Áreas de interesse: negritude, negritude brasileira, escravidão, abolicionismo, antropologia, estudos culturais do Brasil.

  • Formato do arquivo: PDF.
  • Número de páginas: 29.
  • Tamanho para impressão: A4.
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